
Padre Gilvan, da Igreja Católica, é iniciado na Maçonaria numa loja em Sergipe
Nelson Gonçalves, especial para a Folha2
Um padre da Igreja Católica Apostólica Romana foi iniciado na Maçonaria na semana passada, em uma cerimônia realizada pela Augusta e Respeitável Loja Simbólica “Adelardo José de Oliveira” nº 4892, na cidade sergipana de Itabaiana, distante cerca de 45 quilômetros de Aracaju. A loja é filiada ao Grande Oriente do Brasil (GOB). A iniciação do padre e agora irmão Gilvan José de Carvalho ganhou destaque entre lideranças maçônicas sergipanas e foi considerada pelo Grão-Mestre do GOB em Sergipe, Wolney de Melo Dias, como um fato de grande relevância institucional e histórica.
Segundo o dirigente maçônico, a relação entre membros do clero e a Maçonaria já esteve presente em diferentes momentos da história brasileira, envolvendo nomes como Frei Caneca, Dom José Joaquim Azeredo Coutinho, Frei Sampaio e Monsenhor Januário da Cunha Barbosa. A cerimônia reuniu maçons de Sergipe, Bahia e Alagoas e, conforme relatos dos participantes, foi marcada por emoção e forte sentimento de pertencimento à ordem.
Natural de Itabaiana, Gilvan José de Carvalho tem 59 anos e soma 32 anos de sacerdócio. Filho de uma família numerosa, com oito irmãos, relembra uma infância marcada por dificuldades financeiras. O pai atuou como goleiro do Itabaiana Futebol Clube e enfrentava problemas com alcoolismo. “Meu pai era alcoolatra e teve de ser muitas vezes carregado dos bares para casa”. Por essa razão, Gilvan nunca quis tomar uma gota de álcool, se tornando abstêmio.
Antes de ingressar no seminário, trabalhou como escrevente cartorário no fórum da comarca. Foi ordenado padre em 1994, na cidade de Lorena. Formado em Filosofia pela Faculdade Salesiana e em Teologia pelo Seminário Maior Nossa Senhora de Fátima, em Brasília, tornou-se professor da área em universidades salesianas e exerceu funções importantes na Igreja, incluindo, quando ainda era seminarista, a de secretário de bispo diocesano.
Ao longo de mais de três décadas de sacerdócio, ajudou na fundação de 24 paróquias em Sergipe, além de ter atuado como pároco da Catedral de Aracaju e da matriz de Santo Antônio e Almas, em Itabaiana. Lutador de judô, Padre Gilvan afirma ter sido influenciado por figuras religiosas populares como Padre Cícero, Frei Damião e Dom Luciano Cabral Duarte, falecido em 2018 e reconhecido como um dos fundadores da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
O convite para ingressar na Maçonaria surgiu de maneira inesperada, após conhecer Adelson Peixoto, proprietário de uma funerária da cidade e venerável mestre da loja maçônica. “Eu fui na funerária para fazer um plano mutuário para mim”, informou. Segundo Gilvan, o interesse pelos estudos filosóficos e o desejo de aprofundamento intelectual contribuíram para a decisão.
O venerável Adelson, um dos filhos de uma numerosa família formada por 16 irmãos — dois deles padres, sendo que um deixou a batina para se casar — contou que quando recebeu convite para ingressar na Maçonaria precisou esperar mais de 15 anos até a morte da mãe para aceitar. Influenciada por informações falsas sobre a instituição, ela determinou que, caso o filho se tornasse maçom, nunca mais pisaria em sua casa.
O venerável afirma que por desconhecimento muitas pessoas possuem ideias deturpadas sobre as atividades maçônicas. Em Itabaiana são cinco lojas maçônicas que atuam de forma amorosa e discreta. “A Maçonaria não é religião e não fazemos discriminação de nenhuma seita”, frisa Peixoto.
Caso emblemático

Padre Gilvan tem 32 anos de sacerdócio e cursou seminário em Lorena (SP)
Recentemente, Gilvan havia solicitado licença das atividades eclesiásticas para cuidar da mãe, de 88 anos, que enfrenta problemas de Alzheimer. Ele relatou também desgaste físico e emocional causado pela intensa rotina religiosa. “Participei de 12 procissões em dois meses”, relatou.
“Sei que vou ser inquirido pelos meus superiores e que terei de escolher”, declarou. Apesar da decisão, Gilvan afirma manter respeito e fé na Igreja Católica, mas reconhece que a escolha poderá provocar reações divididas entre religiosos e fiéis. “Sei que alguns telhados vão cair e a comunidade poderá ficar dividida com a minha decisão”, afirmou.
O padre contou que não consultou antes o bispo nem a irmã, que é freira, antes de aceitar o convite. “Quando me vi já estava sendo iniciado numa cerimônia muito bonita que, para minha surpresa, foi muito concorrida”, disse.
Ao tomar conhecimento, pelas redes sociais, da filiação do padre na Maçonaria a Arquidiocese de Aracaju divulgou nota oficial, assinada pelo arcebispo Dom Josafá Menezes da Silva, informando que o padre se encontra afastado de suas atividades ministeriais para tratamento psicológico, não exercendo atividades pastorais em nenhuma paróquia ou instituição da igreja.
O padre, por sua vez, informou que estava marcando audiência para falar com o arcebispo para esclarecer de vez o assunto. A reportagem da Folha2 não conseguiu falar com o arcebispo.
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| Padre Gilvan após participar de uma celebração na Igreja de Nossa Senhora de Fátima |
