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A história da Gina: a modelo por trás da caixa de palitos mais famosa do Brasil

 

Sofia Burk, modelo polonesa, é mulher que tem seu rosto estampado nas embalagens dos palitos de dentes Gina

Nelson Gonçalves, especial para a Folha 2

A “Gina” da tradicional caixa de palitos não é uma pessoa real com esse nome, mas sim a modelo polonesa Zofia (Sofia) Burk, que estampou a embalagem em 1975, tornando-se um ícone nacional com seu sorriso e a franja inconfundível. A marca Gina, por sua vez, é uma homenagem à mãe dos fundadores da empresa, Dona Regina, carinhosamente chamada de Gina.

 A empresa Rela foi fundada em 1945, no município de Itatiba (SP), quando Giacomo Rela se uniu aos irmãos e filhos para prestar serviços de manutenção e reparos em máquinas. Em 1975, decidiram ilustrar a embalagem dos palitos roliços com a imagem da “dona Gina”. No entanto, por razões nunca totalmente esclarecidas, em vez de utilizarem a fotografia da própria mãe, os proprietários optaram por contratar uma modelo profissional.

 Foi então escolhida Sofia Burk, uma polonesa que, na década de 1970, figurava entre as modelos mais requisitadas do país. Sofia aceitou o trabalho e realizou a sessão de fotos, sem imaginar que seu rosto se tornaria definitivamente associado à marca. À época, ela acreditava que as imagens seriam usadas apenas em um cartaz ou anúncio impresso. A forte identificação com a marca acabou, inclusive, dificultando e atrapalhando a realização de outros trabalhos.

 Sofia Burk tinha apenas 5 anos de idade quando chegou ao Brasil, vinda da Polônia, em 1951. Desde os 16 anos já atuava como modelo e, nos anos 70, estava no auge da carreira, participando de campanhas de xampus, sabonetes, maquiagens e diversos produtos ligados à beleza. Em 1975, aos 29 anos, foi chamada para a sessão de fotos dos palitos Gina, sem sequer imaginar que sua imagem ficaria eternizada e estamparia milhões de embalagens.

 Formada em Psicologia, Sofia nunca exerceu a profissão. Fala oito idiomas: português, inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, hebraico e ídiche. Atualmente, aos 80 anos, vive há mais de quatro décadas no bairro do Sumaré, em São Paulo. Discreta e longe dos holofotes, Sofia dedica-se ao trabalho voluntário com moradores em situação de rua. Seu rosto, eternizado na embalagem dos palitos Gina, transformou-se em um ícone popular e, em algumas campanhas institucionais da marca, ajudou a reforçar ações sociais e a conexão afetiva com o público.

 Giacomo Rela, o fundador da empresa

Giácomo rela e a esposa Otila, na época em que foi prefeito de Itatiba (SP)

 Giacomo Rela, fundador da empresa, nasceu em Itatiba no dia 20 de setembro de 1922. Filho de imigrantes italianos, seguiu o exemplo do pai e abraçou a profissão de mecânico. Trabalhou na Estrada de Ferro Itatibense e, em 1947, fundou, junto com os irmãos, uma oficina mecânica voltada ao reparo de máquinas.

 Na década de 1950, a família abriu uma torrefação de café e passou também a comercializar máquinas e motores. No final dos anos 1950, as empresas da família obtiveram grande sucesso com a fabricação de palitos de madeira, inicialmente destinados a sorvetes e, posteriormente, aos palitos de dente roliços, de duas pontas, com 2,5 milímetros de diâmetro. A marca Gina, hoje conhecida em todo o país, herdou o apelido pelo qual a mãe de Giacomo era chamada.

 Giacomo também ingressou na vida política. Sua primeira experiência ocorreu em 1968, quando concorreu ao cargo de vice-prefeito, na chapa liderada por Roberto Arantes Lanhoso, sendo eleito. Em 1972, venceu as eleições para prefeito de Itatiba, tendo como vice o jornalista e empresário Adriano Giaretta Parodi.

 À frente da prefeitura, levou sua experiência empresarial para a administração pública, promovendo inovações em um período de intenso crescimento econômico do município. Incentivou a instalação de novas indústrias, priorizou o planejamento urbano e lançou o sistema viário e o plano diretor que orientaram o desenvolvimento da cidade pelas décadas seguintes.

Além de presidir a empresa por muitos anos, Giacomo destacou-se como filantropo, atuando como presidente da APAE e da comissão gestora da Santa Casa de Misericórdia de Itatiba.

 A invenção dos palitos de dente

Charles Forston e sua fábrica de palitos em Maine, nos Estados Unidos

 A história da invenção dos palitos de dente, relatada há décadas, é curiosa. Embora o hábito tenha se popularizado mundialmente, sua origem moderna está ligada ao Brasil e a um norte-americano chamado Charles Forster, que conheceu o costume durante uma passagem pelas praias de Pernambuco.

 Durante séculos, a humanidade improvisou formas de limpar os dentes, utilizando gravetos, espinhos, ossos e lascas de bambu, muitas vezes causando ferimentos na gengiva. Forster ficou impressionado com os belos dentes das brasileiras, principalmente as mulatas, e descobriu que o segredo estava no uso de palitos feitos de galhos de salgueiro. uma árvore de galhos longos e finos. As escovas de dente já existiam, mas eram caras e pouco difundidas, sendo comum que famílias inteiras compartilhassem uma única escova.

 Percebendo o potencial de um mercado ainda inexistente, Forster contratou um inventor para criar uma máquina capaz de produzir palitos de madeira uniformes. Em 1879, sua fábrica já produzia mais de 1 milhão de palitos por dia. O desafio, no entanto, era vender o produto.

 Sua estratégia foi tão simples quanto genial: contratou estudantes da Universidade de Harvard para frequentarem o restaurante Union Oyster House, em Boston, e exigirem palitos em voz alta, simulando indignação quando o estabelecimento não os oferecia. Pouco depois, Forster aparecia como quem surgia por acaso, oferecendo sua mercadoria. O mesmo método foi adotado em livrarias e papelarias, criando artificialmente oferta e demanda.

 O sucesso veio rapidamente. Os palitos tornaram-se presença obrigatória em bares e restaurantes, transformando Forster em um milionário. Após sua morte, em 1901, o filho Maurice deu continuidade ao negócio, usando estratégias igualmente ousadas. A empresa permaneceu independente até 1992, quando passou por fusões e aquisições. Hoje, a marca pertence a um conglomerado americano, e os palitos não são mais fabricados na antiga unidade do Maine, trazendo nas embalagens a discreta inscrição “Made in China”.

 Status e simbolismo

O ator David Beckham sai de restaurante em Nova Iorque com palito de dente dentre os lábios

Quando os palitos de dente eram encontrados apenas em restaurantes sofisticados, usá-los em público tornou-se um símbolo de status. Assim como fumar um cigarro, andar com um palito entre os dentes transmitia uma imagem de riqueza e superioridade. A prática espalhou-se entre homens abastados e, posteriormente, entre mulheres jovens.

 Um colunista social de Boston registrou que, durante o horário de almoço, “quase uma em cada três mulheres encontradas nas ruas Winter e West tinha um palito de dente entre os lábios”. Muitos jovens, inclusive, permaneciam em frente a hotéis elegantes com palitos na boca para sugerir que haviam jantado ali, mesmo sem recursos para isso.

 Liderança de mercado

Há 75 anos os palitos Gina dominam 70% do mercado brasileiro de palitos de dentes

Atualmente, a Gina é líder absoluta no mercado nacional de palitos de dente. A produção diária chega a 40.000.000 de unidades, representando cerca de 70% do consumo brasileiro, estimado em 60.000.000 de palitos por dia.

Há sete anos, a empresa lançou os palitos embalados individualmente, comercializados em caixas com 2.000 unidades, amplamente utilizados por restaurantes e hotéis. Em determinado período, chegou a exportar 15% da produção diária, mas hoje atende exclusivamente o mercado interno.

A matéria-prima utilizada é madeira de pinus proveniente de reflorestamento. Todos os resíduos do processo produtivo são reaproveitados, seja na geração de energia por meio de caldeiras a vapor, seja na venda para empresas de reciclagem.

A matriz da empresa permanece em Itatiba (SP), enquanto a unidade fabril está localizada no distrito industrial de Nova Ponte (MG), em um complexo de 9.000 m², com cerca de 550 funcionários devidamente treinados. A empresa é administrada pela terceira geração da família, tendo como diretor-presidente Luiz Carlos Rela e como diretor administrativo e financeiro Rogério Rela.

Quadro de 1562, "O Casamento em Cana", de Paolo Veronese, mostra uma mulher da nobreza palitando os dentes na mesa de jantar do Palácio Real



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