
Jacir confessa que no começa das atividades tinha medo dos mortos
Nelson Gonçalves, especial para a Folha2
Quarenta
e dois anos dedicados à venda de caixões e à preparação de velórios. Essa é a
trajetória de Jacir Alves do Vale e de seus três filhos — Samuel, Saulo e Silas
— que hoje dividem com o pai o comando das funerárias de Mendonça e Nova
Aliança.
Nascido
em Marília, criado em Mendonça e atualmente morador de Nova Aliança, Jacir
conciliou a vida profissional com a missão de pregador da Palavra de Deus na Congregação
Cristã no Brasil. Não por acaso, na região é conhecido pelo apelido carinhoso
de “crentinho”.
Seus pais
mudaram-se para o sítio dos avós paternos, no bairro Lagoa Seca, em Mendonça.
Ali frequentou a escola rural e, depois, cursou o antigo ginásio na Escola Dona
Nicota. “A dona Marilena, primeira mulher do Nelson Maturana, foi minha
professora e diretora”, recorda com carinho.
Mas a
vida lhe reservava uma provação dolorosa. No entardecer de 30 de setembro de
1981, ele, os dois irmãos e os pais viajavam em um Fusca rumo a um culto no
distrito de Santa Luzia, em José Bonifácio. No trevo da cidade, o carro colidiu
com uma Kombi pertencente a uma empresa de cigarros. Seu pai, João Brás do
Vale, morreu no acidente. Jacir e a mãe sofreram fraturas nas pernas. “Foi o
dia mais triste da minha vida”, relembra.
Dois anos
depois, em 1983, aos 22 anos, casou-se com Leonilda da Costa Guimarães. O casal
teria sete filhos — três homens e quatro mulheres. Inicialmente moraram em Nova
Itapirema, onde Jacir trabalhou na loja de móveis do radialista Ademir Cerose.
Quando a loja fechou, decidiu empreender, mesmo sem recursos ou estrutura.
Com
coragem, foi até uma revendedora de gás em São José do Rio Preto e pediu uma
oportunidade. Recebeu 25 botijões para iniciar o negócio. No começo, fazia as
entregas com uma simples carriola de madeira. Depois, ganhou da empresa uma bicicleta
cargueira, com a qual pedalava por toda a cidade oferecendo gás aos moradores.
A
clientela cresceu rapidamente. Além do gás, passou a vender lampiões e artigos
para pescadores. Foi então que surgiu uma proposta inesperada. O comerciante
Nivaldo Zanetoni, também membro da Congregação Cristã no Brasil, chamou-o em
Mendonça e ofereceu-lhe um carro funerário, propondo sociedade no ramo.
Jacir
hesitou. Tinha medo de defuntos e sempre evitara velórios. Pensou em recusar.
Mas o amigo insistiu. Assim, conduziu o carro funerário de Mendonça até Nova
Aliança para iniciar uma nova etapa da vida.
Não
demorou uma semana para surgir o primeiro atendimento: o falecimento de uma
moradora da cidade. Inseguro, passou antes na delegacia e pediu que um
investigador o acompanhasse. “Nesse primeiro dia foi difícil. Eu tremia mais do
que vara verde.”
Com o
tempo, o medo deu lugar à experiência. Aprendeu a fazer maquiagem, preparar
corpos e conduzir todo o ritual do último adeus com dignidade e respeito. Desde
crianças, os filhos o acompanhavam no trabalho e, hoje, são seus parceiros na
administração das funerárias.
Jacir
começou no negócio com 10% de participação. Aos poucos, sua dedicação foi
ampliando essa porcentagem. Segundo Flávio Zanetoni, filho mais velho de Nivaldo,
o pai deixou orientações claras antes de falecer: as duas funerárias deveriam
ser entregues a Jacir. E assim aconteceu. A viúva, dona Luiza Quesada Zanetoni,
juntamente com os filhos, transferiu a documentação das empresas para o nome de
Jacir.
A história
de Jacir Alves do Vale é marcada por fé, superação e coragem. De entregador de
gás com carriola de madeira a proprietário de funerárias consolidadas na
região, construiu sua trajetória enfrentando o medo, honrando compromissos e
mantendo firme sua missão espiritual e profissional.