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| Vista aérea do clube sendo destruído, feita por drone, mostra a dilapidação de um patrimônio histórico, cultural, esportivo e social na cidade de Marília |
Nelson Gonçalves, especial para a Folha2
O que vem sendo feito com as dependências do antigo Clube dos Bancários de Marília configura um verdadeiro atentado ao patrimônio histórico, social e cultural da cidade. Trata-se de um processo contínuo de destruição e descaracterização de um espaço que levou décadas para ser construído e que desempenhou papel fundamental na vida esportiva, cultural e comunitária de Marília e região.
Assiste-se, passivamente, à destruição de um patrimônio que levou anos para ser erguido e que marcou gerações. Ali aconteceram inesquecíveis e grandiosas festas juninas, inúmeras competições esportivas e apresentações históricas de artistas e grupos de projeção nacional, como Raul Seixas, Simone, Toquinho, Rita Lee, Mamonas Assassinas, Francisco Petrônio e sua orquestra, Três do Rio, Edinho Santa Cruz, entre tantos outros. Não se trata, portanto, de um imóvel comum, mas de um espaço que integra a memória coletiva da cidade. Ali foram também realizadas festas de inúmeros casamentos e recepções para ministros, governadores e secretários de Estado.
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| O complexo de piscinas e ao fundo vê-se as dependências da antiga sauna e do ginásio de esportes |
História de quase 80 anos
Fundado em 1947 por um grupo de bancários, inicialmente nas dependências do sindicato da categoria, embora sem vínculo institucional com ele, o clube surgiu da necessidade de criar um clube campestre, um espaço diferenciado dos clubes sociais existentes até então. Sua origem foi marcada por esforço coletivo, sacrifícios pessoais e espírito associativo exemplar.
Os primeiros recursos foram obtidos em um espaço improvisado no andar superior do restaurante Brasserie, na avenida Sampaio Vidal, onde mesas de bilhar e de carteado ajudavam a financiar o sonho da sede própria. Houve quermesses, rifas e meses de negociações com o fazendeiro Jorge Nasser. Quando chegou o dia marcado para o pagamento e a assinatura da escritura em cartório, veio a surpresa: o fazendeiro anunciou que não venderia mais a área pelo valor combinado.
A reação inicial foi de indignação. Os dirigentes quase partiram para a agressão. Mas, serenamente, Jorge Nasser explicou seus motivos. Impressionado com o esforço daquela turma de homens obstinados, movidos por um sonho coletivo, decidiu não vender a área. Resolveu doá-la integralmente. A revolta transformou-se em euforia. O fazendeiro foi carregado nos ombros pelos associados, em meio a aplausos e celebrações. Em sua homenagem, o bairro passou a se chamar Parque São Jorge.
A partir dessa doação, tudo ficou mais fácil. Sem aquele gesto nobre, é muito provável que o clube jamais tivesse saído do papel. Com recursos em caixa, foi construída a primeira piscina olímpica da cidade. Ergueram um elegante salão de baile, avarandado, com janelas em arcos e piso com taco de madeira nobre, um luxo para a época. Além de restaurante, palco e camarins. O quadro social foi aberto à comunidade. Abriu-se a venda de títulos patrimoniais para toda a comunidade, ampliando sua função social e consolidando seu papel como um dos principais centros de convivência da região.
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| Até o início dos anos 2000 o ginásio de esportes foi utilizado pela Prefeitura de Marília para atividades esportivas, sociais e recreativas |
Um dos maiores clubes da região
O crescimento foi exponencial. Em pouco tempo, o clube alcançou cerca de 15 mil associados, tornando-se o maior da região. Gestões visionárias, como a de Remo Castelli, projetaram expansões ousadas, incluindo a tentativa de erguer uma grande sede social no centro da cidade, no quadrilátero existente entre as ruas Bahia, Sorocaba, Pedro de Toledo e avenida Ipiranga. As obras começaram. Escavações profundas foram feitas e os alicerces iniciados.
Entretanto, uma disputa interna derrubou Castelli da presidência. Por mesquinharias, vaidades e teimosias humanas, a obra foi abandonada ainda no início. A área acabou vendida. O clube adquiriu então outro espaço, fechando inclusive parte da rua Coronel Rodolfo Negreiros, onde foi erguido um monumental ginásio de esportes com capacidade para 8 mil pessoas, que durante muito tempo era o maior da cidade. Embora frustrado por disputas internas e interesses menores, esses episódios revelam o tamanho da ambição e da relevância institucional que o clube possuía. Esses equipamentos se preservados poderiam ainda hoje atender às demandas esportivas, culturais e educacionais da população.
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| As piscinas viviam sempre lotadas e eram utilizadas também para aulas de hidroginástica |
Estatuinte para mudar os estatutos
Em 1979, um grupo de associados ligados a uma ala mais jovem liderou o movimento conhecido como “Estatuinte”, reivindicando uma assembleia para reformar os estatutos. Até então, apenas bancários, já minoria, podiam votar e ser votados. Dos cerca de 15 mil associados, menos de 800 pertenciam à categoria. Os demais não tinham sequer direito a voto. A maioria venceu, e os estatutos foram alterados.
Contudo, criou-se o que se pode chamar de um verdadeiro “jabuti na jabuticabeira”: um Conselho Consultivo Vitalício, que passou a deter um terço das 45 cadeiras do Conselho Deliberativo, responsável por escolher, de forma indireta, os 15 membros da diretoria. Nos anos seguintes, esse modelo gerou inúmeros conflitos, com interferências constantes de conselheiros vitalícios tentando impor suas vontades às diretorias que comandavam o clube.
Diante da atual situação de abandono e destruição do patrimônio, impõe-se uma pergunta incontornável: onde estavam os membros desse Conselho Vitalício quando sucessivas diretorias permitiram e promoveram a dilapidação de um patrimônio construído com décadas de contribuição dos associados?
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| O ginásio de esportes recebeu inúmeros jogos oficiais da Federação de Basquete, Voleibol e de Futebol de Salão para competições finais dessas modalidades |
Omissão dos poderes constituídos
Igualmente grave é a omissão do poder público. Prefeitos, vereadores e órgãos de fiscalização, inclusive o Ministério Público, assistiram passivamente à perda de um bem de inegável relevância social, cultural e urbanística, sem que fossem adotadas medidas efetivas para sua preservação ou reaproveitamento em benefício da coletividade. O Ministério Público, enquanto órgão constitucional incumbido da defesa do patrimônio público e social, também é chamado à reflexão para essa lamentável situação. A ausência de atuação efetiva, preventiva ou corretiva, diante de indícios claros de dilapidação patrimonial e esvaziamento da função social do imóvel, exige apuração e esclarecimento à sociedade.
Quanto custaria hoje construir um ginásio de esportes com a mesma capacidade? Quanto custaria implantar um parque aquático público ou comunitário com a infraestrutura que ali já existiu? A destruição desse patrimônio não representa apenas perda material, mas um retrocesso social, de prejuízo concreto à coletividade, especialmente para a juventude, que deixa de ter acesso a espaços de esporte, cultura e convivência.
Preservar, recuperar ou responsabilizar pela perda do patrimônio do Clube dos Bancários não é uma questão de nostalgia ou saudosismo. É matéria de interesse público, de responsabilidade institucional e de respeito à história urbana de Marília. A apuração dos fatos, a identificação de responsabilidades e a adoção de medidas reparatórias ou compensatórias não são apenas desejáveis. São juridicamente e moralmente necessárias. É uma obrigação moral, institucional e histórica com a cidade de Marília e com as gerações que ajudaram a construir esse legado.
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| Piscinas do clube eram utilizadas para o aprendizado e também competições |
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| Durante muitos anos o clube era o único da região que posuia piscina olímpica |
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| O clube era uma das principais área de lazer do município |
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A demolição de um patrimônio histórico sob o silêncio das instituições |
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Dilapidação
do clube: responsabilidades, omissões e o apagamento
de um patrimônio coletivo |
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Quem
deixou o Clube dos Bancários de Marília ser destruído? |
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| Aquele que foi o maior ginásio de esportes da região está sendo derrubado |
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Clube dos
Bancários de Marília: perda patrimonial, omissão institucional e dano social |
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Quando a
omissão destrói a memória: o fim anunciado do Clube dos Bancários de Marília |
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Local onde já foi palco para grandes eventos está sendo totalmente derrubado |
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O clube que já foi palco para inúmeras recepções para ministros, governadores está terminando de forma trágica e triste para os moradores de Marília |
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Curiosamente num dos muros do clube tinha propaganda de uma seguradora que também não segurou e nem impediu a destruição de um valoroso patrimônio histórico e cultural É muito desconsolador
observar a destruição de clube que atravessou gerações. As imagens feitas, por
drone, pelo cinegrafista Betão Drones exibem uma panorâmica da situação atual. Assista
ao vídeo clicando aqui . |
















