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Tragédia na BR-153 deixa 6 mortos e 45 feridos na região de Marília


Acidente também deixou a pista interditada até por volta das 5 horas da manhã

Um grave acidente com um ônibus que transportava trabalhadores rurais deixou 6 mortos e 45 feridos gravemente na madrugada desta segunda-feira (16), na rodovia BR-153, próximo à serra de Ocauçu, em trecho pertencente ao município de Marília. O número de mortos poderá aumentar porque se encontram internados vários passageiros em estado bastante grave.

O veículo saiu do Maranhão com destino ao Santa Catarina, levando trabalhadores para a colheita de maçãs. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), um dos pneus teria estourado, provocando a perda de controle e o capotamento do ônibus.

Informações preliminares apontam que o veículo operava de forma irregular em São Paulo. O inspetor Flávio Catarucci, da PRF,  disse em entrevista à Rádio CBN. que a autorização do ônibus permitiria circulação apenas na região Nordeste.

O repórter Klaus Bernardino, do portal Visão Notícias, apurou ainda que o coletivo não possuía autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para fretamento fora do Maranhão e apresentava graves problemas mecânicos, incluindo a ausência de uma roda traseira do lado esquerdo.

Além disso, o veículo estaria em condições extremamente precárias. Faltava uma das rodas traseiras do lado esquerdo (deveriam ser 4 e havia apenas 3). Durante a viagem, o motorista já teria parado 2 vezes em borracharias. Sem condições de conserto, uma roda traseira foi retirada. Passageiros relataram que outro pneu do mesmo lado teria estourado antes do capotamento. As condições comprometiam seriamente a estabilidade do ônibus.

Motoristas

Dois motoristas se revezavam na direção. O que estava em descanso morreu no local. O condutor que dirigia no momento do acidente está internado em estado grave e foi autuado em flagrante por homicídio.

Mobilização solidária

Torcedores do Marília Atlético Clube iniciaram campanha de doação de sangue no Hemocentro de Marília. As primeiras 200 pessoas que doarem receberão uma bola personalizada do clube. A campanha é liderada pelo torcedor Dejair Sérgio Fernandes.

Ônibus sendo guinchado para o pátio da PRF. Observa-se no detalhe que o ônibus já trafegava sem uma das rodas traseiras (foto: Klaus Bernardino/ Visão Notícias)

Na semana passada o jornalista Nelson Gonçalves, editor do jornal Folha2, percorreu os 321,5 km do trecho paulista da BR-153 e ficou indignado com o estado de conservação da rodovia. E por isso escreveu e publicou o artigo abaixo em diversos veículos:

 
BR-153: a rodovia das cinco tristezas

 ·  Nelson Gonçalves

 A BR-153, no trecho paulista, já não pode mais ser chamada apenas de rodovia. Ela se transformou em um símbolo da omissão, do descaso e da irresponsabilidade de autoridades e concessionária. Entre os motoristas, ganhou um apelido que diz tudo: “a rodovia das cinco tristezas”.

As cinco são evidentes: não é duplicada; não possui acostamento digno; não tem sinal de telefonia celular na maior parte do trajeto; apresenta sinalização precária; encontra-se em estado avançado de degradação, tomada por buracos e remendos malfeitos.

Tudo isso em uma rodovia caríssima com quatro praças de pedágio, onde o usuário paga como se trafegasse por uma via moderna, mas recebe em troca risco, atraso e insegurança. Para agravar, mesmo com a ampla adesão ao sistema Sem Parar, concessionária mantém aberta apenas uma cabine automática, obrigando motoristas a enfrentar filas desnecessárias. Um retrato fiel da falta de respeito com quem sustenta o sistema.

Conhecida como também como Transbrasiliana, a BR-153 possui 3.255 km, cruza 8 estados e figura reiteradamente no ranking das rodovias mais perigosas do Brasil. O trecho paulista, com 321,6 km começa com buracos desde quando se atravessa as pontes nas divisas de estados. Ligando Icém a Ourinhos e atravessando 22 municípios, é apontado como um dos piores de toda a extensão da rodovia.

O dado mais revoltante é que esse abandono ocorre justamente em São Paulo, o estado mais rico do país. O asfalto parece uma colcha de retalhos, sem padrão, sem manutenção adequada e sem qualquer preocupação real com segurança viária.

É impossível não questionar a inércia criminosa dos prefeitos de Marília, Ourinhos, Lins, São José do Rio Preto e das demais 18 cidades cortadas pela BR-153. Onde estão as cobranças públicas? Onde estão as ações conjuntas? Onde está a pressão política? O mesmo silêncio se repete entre os deputados estaduais e federais da região, bem como no Ministério Público Federal, que assiste passivamente a um problema que ceifa vidas todos os meses.

A BR-153 é a principal ligação terrestre da região com Brasília. No entanto, para quem ocupa cargos de poder, a rodovia parece inexistente. Eles não a utilizam. Voam em aviões pagos pelo contribuinte e, assim, não enfrentam filas, buracos, caminhões em comboios intermináveis nem o risco diário de não chegar ao destino.

A consequência direta da pista simples e estreita é o caos. Trechos inferiores a 100 quilômetros, que poderiam ser percorridos em menos de uma hora, consomem mais de duas horas. Isto porque de cada 10 veículos, sete são caminhões. E caminhões pesados trafegando a menos de 30 km/h formam filas de 10, 20 ou mais veículos. tornando as ultrapassagens praticamente impossíveis e transformando qualquer deslocamento em um exercício de paciência e sobrevivência.

Os números confirmam o absurdo. Dados da concessionária mostram que o fluxo de caminhões é quase 10% maior do que o de automóveis. Apenas em dezembro de 2025, foram 699.435 automóveis contra 808.332 caminhões circulando pelo trecho paulista.

O resultado dessa equação é trágico e previsível. Somente no último ano ocorreram 486 acidentes, com 322 feridos que deixaram prejuízos, sequelas irreparáveis e 20 mortes. Em outras palavras, mais de uma vida perdida por mês. Essas mortes que não são fatalidades: são consequência direta da falta de duplicação, da negligência e da ausência de fiscalização efetiva.

A pergunta que precisa ser feita, sem rodeios, é dura, mas necessária: as autoridades vão esperar que morra alguém de suas próprias famílias para agir? Quantas vidas ainda precisarão ser sacrificadas para que a duplicação da BR-153 deixe de ser promessa e se torne realidade?

Cada morte nessa rodovia tem responsáveis. E o silêncio diante disso não é neutralidade: é cumplicidade.

 

·  Nelson Gonçalves é jornalista em São José do Rio Preto

 


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