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| Em 18 de setembro de 1950, a TV Tupi realizou a primeira transmissão oficial de televisão no Brasil. |
Nelson Gonçalves, especial para a Folha2
Em 18 de
setembro de 1950, o Brasil entrou oficialmente na era da televisão. Às 22
horas, com uma hora de atraso em relação ao horário previsto, a atriz Iara Lins
abriu a primeira transmissão da TV Tupi, em São Paulo. O país se tornava o
quarto do mundo a colocar uma emissora de televisão no ar, 11 anos depois da
primeira transmissão regular realizada nos Estados Unidos.
Para tentar reproduzir essa cena o professor e cineasta
Arthur Steagall Condé colocou no ar, em seu canal E-Motion Pictures, no
YouTube, um documentário resumido, com 5 minutos e meio de duração, sobre a
chegada da televisão ao Brasil. Clique aqui para assistir o documentário
produzido por Arthur Condé.
Com fotos, vídeos e recursos de Inteligência Artificial, Condé reconstituiu
o que teria sido exibido às 22h de 18 de setembro de 1950, data da primeira
transmissão oficial de televisão no país. O trabalho busca transportar o
espectador para aquele momento histórico e mostrar, de forma didática e visual,
como foi o início da televisão brasileira.
Por trás
da empreitada de colocar a televisão no ar estava o empresário Francisco de
Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, conhecido popularmente como Chatô, proprietário
de um dos maiores conglomerados de jornais e emissoras de rádio do país e
principal responsável pela implantação da televisão brasileira.
A chegada
dos equipamentos já havia provocado grande movimentação. Hebe Camargo contou
que ela, Walter Forster, Dermival Costa Lima, Sarita Campos, Lolita Rodrigues,
Airton Rodrigues, Triana Romero e Cassiano Gabus Mendes acompanharam
Chateaubriand e diretores dos Diários Associados até o Porto de Santos para
receber os primeiros equipamentos importados. Depois de desembarcados, eles
foram transportados por uma fila de caminhões que subiu a Serra do Mar em
direção a São Paulo. Os veículos traziam faixas anunciando a chegada da
televisão, despertando a curiosidade e a expectativa do público.
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| Público de aglemora em bar na área central de São Paulo para assistir as primeiras imagens da TV |
Televisores contrabandeados
Chatô preparava um grande espetáculo para marcar oficialmente a inauguração da televisão brasileira. Contratou técnicos, artistas, humoristas, cantores e cantoras de renome e convidou as principais autoridades do país. Mas a primeira transmissão da TV Tupi correu o risco de não haver ninguém para assisti-la.
Um mês antes da inauguração, um engenheiro da RCA Victor
desembarcou no Brasil para supervisionar a instalação dos equipamentos. O
americano quis saber quantos milhares de receptores de televisão já haviam sido
vendidos em São Paulo. Quase tomou o primeiro avião de volta para os Estados
Unidos quando ouviu a resposta de dois inexperientes diretores da nova
emissora: nenhum.
Ou seja: a televisão brasileira estava prestes a entrar
no ar, mas não havia um único aparelho de televisão disponível para o público
assistir à transmissão. Chatô disse ao americano para não se preocupar. No
Brasil, segundo ele, tudo se resolveria na base do improviso.
Foi então procurar o presidente da República, Eurico
Gaspar Dutra, para pedir socorro. Apresentou uma solução que considerava a mais
rápida: contrabandear televisores via Paraguai. Precisava de pelo menos 80 a
100 aparelhos para distribuí-los em locais estratégicos de São Paulo.
Dutra teria respondido que o governo não poderia fazer
nem autorizar contrabando. Chatô, porém, teria retrucado: “O Estado não precisa
saber dessa solução de emergência, presidente. O que interessa é a televisão
funcionando. Sem ela, o governo fica que nem índio, de tanga”.
E assim, segundo relatado em diversos livros, chegaram
clandestinamente ao Brasil os primeiros 100 televisores destinados à
inauguração da televisão. Metade deles teria sido enviado como presente a
políticos, empresários e personalidades que ajudavam a financiar a implantação
da televisão no país.
O episódio, porém, quase provocou uma situação ainda
mais curiosa. Sem saber que o próprio patrão estava por trás da operação, um
repórter do “Diário da Noite”, jornal pertencente ao império dos
Diários Associados, publicou com destaque uma denúncia de que a polícia
investigava o contrabando de centenas de aparelhos de televisão para São Paulo.
Foi preciso que o diretor do jornal, Edmundo Monteiro,
saísse a campo para tranquilizar os lojistas. Ele teria informado que ninguém
seria preso ou enquadrado como receptador de mercadoria contrabandeada, pois
Chatô e o governo haviam chegado a um acordo para que a operação não tivesse
consequências. Depois disso, o “Diário da Noite” nunca mais tocou no
assunto.
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| Bispo asperge água benta e quase danifica equipamentos da TV Tupi |
Água benta
quase estragou a festa
Nos
estúdios do bairro do Sumaré, Cassiano Gabus Mendes havia preparado uma
programação especial para a inauguração. O espetáculo reuniria humoristas,
cantores, cantoras e números variados, incluindo a participação de Amácio
Mazzaropi, Inezita Barroso e diversos esquetes. Durante 20 dias, o elenco
ensaiou para que tudo estivesse pronto para a grande noite.
Mas, na
hora decisiva, um imprevisto ameaçou o espetáculo. Uma das câmeras apresentou
defeito justamente antes da transmissão. O que havia sido planejado e ensaiado
para três câmeras precisou ser adaptado às pressas para apenas duas.
Depois dos discursos das autoridades presentes, chegou o
momento da bênção dos equipamentos. O bispo-auxiliar de São Paulo, Dom Paulo
Rolim de Loureiro, aproximou-se das câmeras para aspergir água benta sobre os
aparelhos.
Foi justamente nesse momento que ocorreu um incidente.
Uma gota de água atingiu uma das válvulas de uma câmera. Quando ligada, a
válvula esquentava intensamente e adquiria uma coloração avermelhada devido ao
calor. Ao receber a água, a válvula estourou imediatamente, provocando a
interrupção daquele equipamento. O episódio, ocorrido justamente durante a
bênção das câmeras, acabou se tornando uma das curiosidades da histórica
primeira transmissão de televisão no Brasil.
Lia
Aguiar recordou que os técnicos ficaram apavorados diante do problema. Os
artistas tiveram de abandonar parte das marcações previstas e adaptar a
apresentação às novas condições. O improviso, naquele momento, tornou-se a
única alternativa para colocar a televisão brasileira no ar.
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| Um índio foi a primeira imagem exibida na televisão brasileira |
Mesmo com
as dificuldades, a transmissão aconteceu
Lolita
Rodrigues interpretou o Hino da Televisão Brasileira, com música de Marcelo
Tupinambá e letra do poeta Guilherme de Almeida. Era um momento simbólico:
diante das câmeras, nascia oficialmente a televisão brasileira.
A
aventura, porém, não terminara naquela noite. Lia Aguiar contou posteriormente
um detalhe que revela o tamanho do improviso: ninguém havia pensado no programa
do dia seguinte. A televisão acabara de nascer, mas sua programação ainda
precisava ser inventada.




