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Chiclayo se prepara para rever o Papa que foi seu padre

 

Catedral de Chiclayo, onde o então bispo dom Robert, hoje Papa Leão 14, celebrou centenas de missas

Nelson Gonçalves, especial para a Folha2

Chiclayo, cidade peruana de cerca de 600 mil habitantes, no norte do país, a 770 quilômetros de Lima, está em clima de festa para receber, em novembro, o Papa Leão 14. Nas ruas, igrejas e estabelecimentos comerciais, a expectativa é especialmente grande entre padres, freiras e moradores que conviveram com o religioso que, antes de chegar ao trono de Pedro, era conhecido como Robert Prevost. Ele viveu e trabalhou por quase quatro décadas naquela região.

Por onde se anda pela cidade, encontram-se marcas de sua passagem. Igrejas, padarias e restaurantes exibem cartazes e fotografias para lembrar que o então padre, bispo, arcebispo e cardeal frequentava aqueles lugares para tomar desayuno (café da manhã), almoçar ou jantar. Entre os moradores que aguardam com emoção seu retorno está a freira Editha Viera Sosa, que, perto dos 90 anos, sonha em rever de perto o antigo sacerdote que serviu durante tantos anos na região e que agora veste a túnica branca de papa.

As irmãs do Convento de São Francisco de Assis contam, com orgulho, que Leão 14 escolheu a cozinheira peruana Verônica Sanchez Molina para trabalhar em sua residência no Vaticano. Também chamou para ser seu secretário pessoal o padre peruano Edgar Ivan Rimavcuna Inga, que durante muitos anos foi responsável por uma paróquia na região de Lambayeque, onde está localizado o convento. Bem ao lado do convento está a estátua erguida em homenagem ao Papa.

Nascido em Chicago, nos Estados Unidos, o futuro pontífice chegou ao Peru em 1985, pouco depois de ser ordenado sacerdote, como missionário da Ordem de Santo Agostinho. Sua trajetória no país passou por diferentes cidades e funções. As primeiras missões foram realizadas em Piura e Trujillo. Em Lima, atuou como vigário judicial. Mas foi em Chiclayo que sua ligação com a região se tornou mais forte: ali foi nomeado bispo em 2014. No ano seguinte, obteve a cidadania peruana.

Papa Leão 14 nasceu nos Estados Unidos, mas se natularizou com peruano em 2015


Conhecido pelo estilo simples e pela proximidade com as pessoas, Prevost lavava a própria louça, jogava bola com religiosos e amigos e participava de ações em defesa dos direitos humanos. Deixou o Peru em 2023, quando foi chamado ao Vaticano pelo Papa Francisco.

Antes mesmo de se tornar bispo, já havia trocado os tradicionais hambúrgueres americanos pelos sabores da culinária peruana. Entre os pratos de sua preferência estavam o cabrito chiclayano, o ceviche de peixe fresco, marinado no suco de limão e temperado com pimenta, e a papa a la huancaína, preparada com batata amarela e um molho cremoso à base de queijo e pimenta.

Na rotatória da entrada principal de Chiclayo, para quem chega de Lima, uma estátua de sete metros de altura, sobre um pedestal de concreto armado de 2 metros, reproduz a figura de corpo inteiro do Papa Leão 14. A homenagem transformou-se em um dos símbolos da expectativa da cidade pela visita do pontífice. A prefeita Janet Cubas Carranza agradeceu a Leão 14 por ter colocado Chiclayo em evidência no cenário internacional.

Ao lado da Catedral de Santa Maria, onde o então bispo celebrou centenas de missas, um restaurante mantém na porta um cartaz que lembra suas frequentes visitas. É mais uma das muitas pequenas referências espalhadas por Chiclayo que ajudam a contar a história do religioso que viveu entre os peruanos e que agora retorna à cidade na condição de papa.

Monumento em homenagem ao Papa Leão 14, que ele ainda não conhece


Pais sem moradores de rua

Apesar de o Peru ainda ser considerado um país de renda média e conviver com importantes desigualdades sociais, uma impressão chama a atenção de quem percorre suas cidades: a pouca presença, em determinados lugares, de moradores em situação de rua e de pessoas pedindo esmolas nas calçadas.

Em Chiclayo, por exemplo, o visitante pode caminhar por ruas movimentadas, praças, igrejas, mercados e áreas comerciais sem encontrar a mesma quantidade de pessoas vivendo nas ruas que se observa em grandes cidades brasileiras. É uma realidade que surpreende, sobretudo para quem chega ao país carregando a imagem de uma nação marcada pela pobreza.

Mas a pobreza nem sempre está onde os olhos procuram. Ela pode estar dentro das casas, nas periferias, no trabalho informal e nas dificuldades enfrentadas diariamente por milhares de famílias. A ausência de grandes grupos de pessoas nas calçadas, portanto, não significa ausência de pobreza, mas revela uma característica social que chama a atenção de quem visita o Peru.

"Papa a la huancaína", preparada com batata amarela e um molho cremoso à base de queijo e pimenta, um dos pratos preferidos do Papa Leão 14 no Peru

Catedral de Chiclayo, onde o Papa Leão 14 atuou como padre e como bispo no Peru




 

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