Aldy Carvalho, poeta e Cantador láaa do sertão
Das léguas que andei, trago no canto e na poesia o aprendizado de que o homem vale menos pelo poder que ostenta e muito mais pela humildade que cultiva. Sigo acreditando que o conhecimento só encontra verdadeiro sentido quando se alia à sensibilidade, à justiça e ao respeito pela dignidade humana.
Talvez por isso, vez ou outra, descambe a conversar em prosa. Das léguas que andei, recolhi inquietações que o tempo não conseguiu silenciar. E poucas me parecem tão atuais quanto a vaidade — essa velha companheira da condição humana que, como observou o filósofo brasileiro Mathias Aires, acompanha o homem do berço ao túmulo.
Quando a vaidade se apossa dos poderosos, deixa de ser simples fraqueza individual e transforma-se em ameaça coletiva. É sobre essa enfermidade da alma, tão antiga quanto o próprio homem e tão presente nos acontecimentos do mundo contemporâneo, que partilho estas breves palavras.
Em seu monumental Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens, publicado em 1752, Mathias Aires apresenta uma das mais profundas reflexões da filosofia brasileira. Para ele, a vaidade não é um acidente da natureza humana; é uma de suas paixões mais constantes. Nasce com o homem, acompanha-o durante toda a vida e, muitas vezes, sobrevive à própria morte na ânsia de perpetuar nomes, feitos e monumentos. A vaidade, afirma o filósofo, é uma força disfarçada, capaz de vestir as roupas da virtude, da generosidade, da coragem e até da religiosidade, quando, na verdade, busca apenas alimentar o ego.
Talvez nenhum ambiente revele essa paixão com tanta intensidade quanto o exercício do poder. O poder, quando desprovido de virtude, converte-se facilmente em palco para a exaltação pessoal. O governante deixa de servir à coletividade para servir à própria imagem. Não lhe basta governar; deseja ser admirado, temido, idolatrado. Sua vontade passa a confundir-se com a própria vontade da nação, como se toda discordância fosse uma afronta pessoal.
A História oferece inúmeros exemplos dessa deformação moral. Reis, imperadores, ditadores e líderes políticos, de diferentes épocas e ideologias, sucumbiram ao fascínio da própria grandeza. Ainda hoje, em diferentes partes do mundo, observa-se a ascensão de lideranças cuja retórica é marcada pelo personalismo, pela polarização e pela busca incessante de reconhecimento. Em tempos recentes, acontecimentos envolvendo a atuação de um presidente dos Estados Unidos reacenderam debates globais sobre os riscos do culto à personalidade, da intolerância ao contraditório e da substituição do diálogo pela imposição da força. Independentemente de nomes ou correntes políticas, esses episódios evidenciam um problema muito mais profundo: quando a vaidade ocupa o lugar da prudência, a paz torna-se refém dos interesses pessoais.
Entretanto, seria injusto atribuir toda a responsabilidade apenas aos que ocupam posições de comando. Como escreveu António Manuel Palhinha:
"Há homens que atravessam a História; e há outros que, julgando atravessá-la, desejam antes possuí-la. Não lhes basta a cadeira: exigem o altar. Nenhum homem, por mais ruidoso que seja, ergue sozinho a sua torre. Há sempre uma multidão carregando pedras."
Talvez aí resida uma das mais dolorosas constatações do nosso tempo. A vaidade do poderoso alimenta-se da subserviência dos que preferem ajoelhar-se a permanecer de pé. Multiplicam-se os aplausos fáceis, a bajulação interesseira e o silêncio conveniente. Muitos não seguem líderes por convicção, mas pela esperança de participar, ainda que por migalhas, dos benefícios do poder.
A vaidade, portanto, não é apenas individual; torna-se coletiva quando transforma cidadãos em admiradores incondicionais e instituições em instrumentos de interesses particulares. Nesse ambiente, a verdade perde espaço para a propaganda, a justiça cede lugar à conveniência e a humanidade passa a ser medida pelo tamanho da influência, e não pela grandeza do caráter.
Mathias Aires advertia que tudo aquilo que a vaidade constrói é efêmero. O brilho do poder, os aplausos das multidões, as honrarias e os títulos dissipam-se com a mesma rapidez com que surgem. O que permanece é a memória das escolhas feitas. Os homens verdadeiramente grandes não são aqueles que dominaram povos, mas os que dominaram a si mesmos. Não são os que acumularam seguidores, mas os que multiplicaram a dignidade humana.
A paz entre os povos jamais nascerá da soberba, da imposição ou da humilhação dos adversários. Ela floresce na virtude, na justiça, na temperança e no reconhecimento de que toda autoridade é transitória. O verdadeiro poder não consiste em fazer multidões ajoelharem-se, mas em ajudá-las a permanecerem de pé, livres e conscientes de sua própria dignidade.
Talvez essa seja a maior lição de "Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens": enquanto o homem continuar confundindo grandeza com exaltação pessoal, continuará edificando impérios sobre areia. A civilização somente encontrará um caminho seguro quando a vaidade ceder lugar à humildade, e quando os poderosos compreenderem que a maior glória de um governante não é ser temido, mas ser lembrado por haver promovido a paz, a justiça e a humanidade.
Das léguas que andei, aprendi que os caminhos mais longos nem sempre conduzem aos palácios; muitas vezes, conduzem ao encontro de nós mesmos. E talvez seja justamente essa a viagem que falta aos poderosos de todos os tempos: a travessia do próprio orgulho. Porque quem vence os outros conquista apenas o poder; mas quem vence a própria vaidade conquista aquilo que nem o tempo consegue destruir: a verdadeira grandeza.
