
Santa Rita de Cássia carrega na testa uma centelha de espinho da coroa de Cristo
Por Nelson Gonçalves, especial para a Folha2
Em agosto
de 2025, minha vida tomou um rumo que eu jamais imaginaria. Um problema
repentino em um dos olhos começou a comprometer minha visão. A suspeita era de
que um pico de diabetes tivesse provocado o rompimento de uma veia. Procurei
ajuda médica e a recomendação foi imediata: seria necessária uma cirurgia.
Mas eu
tinha uma viagem internacional marcada para aquela mesma semana. Passagens
compradas, compromissos assumidos e sonhos planejados. Resolvi adiar o
procedimento. Viajei e, por algum tempo, pareceu que o problema havia
diminuído. Talvez fosse apenas uma impressão. Talvez eu quisesse acreditar que
tudo estava resolvido.
No início
de 2026, porém, os sintomas voltaram. Minha visão tornou-se novamente
prejudicada. Procurei outros especialistas, na esperança de ouvir uma
alternativa menos invasiva. Consultei três oftalmologistas diferentes. Todos
chegaram à mesma conclusão: a cirurgia era inevitável.
Confesso
que fui para o centro cirúrgico carregando um medo enorme. A ideia de mexer nos
olhos é algo que assusta qualquer pessoa. Fiz o procedimento acreditando que,
ao despertar, encontraria alívio. No entanto, aconteceu justamente o contrário.
Minha visão ficou ainda mais embaçada.
Foi então
que busquei ajuda no BOS, em Sorocaba, considerado o maior hospital
oftalmológico da América Latina. Depois de dezenas de exames, veio uma nova
notícia difícil de ouvir: seria necessário refazer a cirurgia. Além dos riscos
naturais, haveria a necessidade de permanecer alguns dias na cidade para
repouso e acompanhamento médico. Meu plano de saúde não cobria o tratamento naquele
local.
Entre
consultas, exames e preocupações, os médicos de Sorocaba me indicaram dois
especialistas de São José do Rio Preto, profissionais altamente respeitados
pela equipe do hospital.
Mas antes
de marcar a nova cirurgia, senti que precisava buscar outro tipo de auxílio.
Numa
tarde de segunda-feira, dirigi-me à Igreja de Santa Luzia, padroeira dos olhos
e dos oftalmologistas. A igreja estava vazia. A porta principal encontrava-se
entreaberta e um jardineiro podava as árvores na entrada. Ao passar por ele,
ouvi um aviso simples: quando fosse embora, deveria sair pela lateral, pois a
porta principal seria fechada.
Entrei em
silêncio.
Caminhei
até a Capela do Santíssimo Sacramento. Lá encontrei a imagem de uma santa
vestida com hábito escuro e uma pequena marca vermelha na testa. Julguei
tratar-se de Santa Luzia. Ajoelhei-me diante dela e, com o coração apertado,
fiz minhas orações. Pedi a cura. Pedi serenidade. Pedi coragem para enfrentar o
que viesse pela frente.
Naquela
tarde, saí da igreja acreditando ter conversado com a santa protetora dos meus
olhos.
Mais
tarde, já em casa, resolvi pesquisar uma oração específica. Foi então que
descobri meu engano.
Aquela
imagem não era de Santa Luzia.
Era Santa
Rita de Cássia.
Muitos
poderiam considerar aquilo uma coincidência. Eu preferi enxergar como um
chamado.
Ao saber
que ela era conhecida como a santa das causas urgentes e impossíveis, senti uma
curiosidade inexplicável. Descobri que havia uma paróquia dedicada a ela em São
José do Rio Preto e fui assistir a uma missa. Lá encontrei quatro velhos amigos
— um jornalista, um publicitário e dois corretores de imóveis. Todos devotos de
Santa Rita.
A partir
daquele momento comecei a conhecer a história de Santa Rita de Cássia.
Nascida
em 1381, em Roccaporena, próxima à cidade italiana de Cascia. Rita enfrentou
sofrimentos profundos. Perdeu o marido, perdeu os filhos e viu portas se
fecharem diante de seus sonhos. Mesmo assim, jamais abandonou a fé. Conta a
tradição que, depois de ser rejeitada por um convento, ouviu seu nome ser
chamado durante a noite. Ao abrir os olhos, encontrou Santo Agostinho, São
Nicolau e São João Batista, que a conduziram milagrosamente para dentro do
mosteiro.
Sua vida
foi marcada pelo cuidado aos doentes, pela caridade e por acontecimentos
extraordinários que atravessaram os séculos. Ainda dentro convento passou a cuidar
dos leprosos e ajudar na cura dessa terrível doença.
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| O corpo de Santa Rita se conserva intacto na igreja de Cascia, na Itália |
Entre as
histórias mais conhecidas está a da rosa. Durante um rigoroso inverno europeu,
já muito doente, Rita manifestou o desejo de receber uma rosa de seu jardim.
Apesar da neve que cobria tudo, a flor foi encontrada e levada até ela. Desde
então, tornou-se também conhecida como a Santa da Rosa.
Após sua
morte, inúmeros milagres passaram a ser atribuídos à sua intercessão. Entre
eles, a recuperação da visão de uma jovem chamada Elizabeth Bergamini. Talvez
tenha sido essa história que mais tocou meu coração.
Também me
impressionou o relato das abelhas brancas. Quando Rita era apenas um bebê, um
enxame teria pousado sobre seu berço. As abelhas entravam e saíam de sua boca
sem causar qualquer ferimento, deixando apenas mel. Para os devotos, aquele
episódio simbolizava a doçura de uma alma destinada a viver em profunda
intimidade com Deus.
Quanto
mais eu conhecia Santa Rita, mais percebia que sua história não era apenas uma
coleção de milagres. Era uma mensagem de perseverança. Ela enfrentou perdas,
recusas, dores e impossibilidades. Mesmo assim, continuou acreditando. Descobri que na cidade mineira de Cássia encontra-se o maior santuário do mundo dedicado à Santa Rita de Cássia. Leia matéria sobre esse santuário clicando aqui.
Hoje,
olhando para trás, percebo que fui até a Igreja de Santa Luzia procurando a
cura dos olhos. Mas talvez Deus tivesse outros planos. Talvez eu precisasse
encontrar Santa Rita de Cássia para compreender que existem curas que vão além
da visão.
Os
médicos continuam cumprindo sua missão. A ciência segue seu caminho. Os
tratamentos existem porque Deus também inspira o conhecimento humano.
Mas
naquele dia, naquela igreja vazia, descobri algo que exame algum seria capaz de
revelar.
Às vezes,
quando pensamos estar perdidos, somos conduzidos exatamente ao lugar onde
precisamos estar.
E, por
caminhos que não compreendemos, a esperança encontra uma forma de nos enxergar
antes mesmo que nós consigamos enxergá-la.
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| Igreja erguida em homenagem a Santa Rita na cidade italiana de Cascia |
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| A maior estátua da santa está localizada na cidade de Santa Rita (RN) |


