O homem que escolheu o mínimo para viver e ousou fazer do silêncio sua última palavra |
Nelson Gonçalves, especial para a Folha2
Totalmente desprendido de bens materiais, o
escritor e fazendeiro Raduan Nassar
desfez-se, em 2012, aos 77 anos, da maior parte de suas terras para doá-las à Universidade Federal de São Carlos. A doação foi
feita sob a condição de que a área fosse destinada à formação de jovens
interessados em cursos voltados à agricultura familiar e ao desenvolvimento
sustentável.
Raduan Nassar nasceu
em 1935, em Pindorama, cidade de cerca de 14 mil habitantes na região de
Catanduva, onde estudou até a adolescência, quando sua família se mudou para
São Paulo. Filho de comerciantes libaneses, passou a ajudar os pais no Bazar
13, que se tornaria uma importante empresa na capital paulista.
Aos 20 anos,
ingressou simultaneamente na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e
no curso de Letras da Universidade de São Paulo.
No curso noturno de Direito, conheceu Hamilton Trevisan e Modesto Carone, com
quem desenvolveria projetos literários. Em 1957, iniciou o curso de Filosofia
na USP, tornando-se frequentador assíduo da Biblioteca Mário de Andrade.
Em 1960, com a
morte de seu pai, João Nassar, afastou-se dos negócios da família e viajou para
o Quebec, no Canadá, e para os Estados Unidos, onde permaneceu por alguns
meses. De volta ao Brasil, concluiu o curso de Filosofia em 1963 e seguiu para
Lüneburg, na então Alemanha Ocidental, para estudar alemão. Durante sua estadia
na Europa, tomou conhecimento do golpe militar de 1964 e decidiu não assumir
uma vaga como professor no campus de São José do Rio Preto. Interrompeu os
estudos e retornou ao Brasil, passando antes pelo Líbano para conhecer a terra
de seus pais.
Estreou na
literatura em 1975 com o romance “Lavoura Arcaica”. Em 1978, publicou “Um
Copo de Cólera”, obra escrita anteriormente, em 1970. Já em 1987, lançou “Menina
a Caminho”, reunindo contos das décadas de 1960 e 1970. Com apenas três
livros, é considerado pela crítica como um dos grandes nomes da literatura
brasileira, frequentemente comparado a autores consagrados como Clarice Lispector e Guimarães Rosa.
Em 1973, conheceu a
professora Heidrun Bruckner, do Departamento de Línguas Germânicas da USP, que
se tornaria sua esposa. Nesse período, associou-se a colegas para fundar o
semanário “Jornal de Bairro”, que chegou a atingir tiragens de até 160
mil exemplares por edição.
Após se dedicar ao
jornalismo, abandonou a literatura em 1984 e mudou-se para um sítio em
Pindorama. Posteriormente, fixou-se em Buri. Em 2010, anunciou a doação de uma
fazenda de 643 alqueires à UFSCar. A Fazenda Lagoa do Sino tornou-se sede do
quarto campus da universidade, inaugurado em março de 2014. O campus oferece
cinco cursos voltados às áreas de ciências agrárias, meio ambiente e
desenvolvimento sustentável, com cerca de 240 novos alunos por ano.
Em maio de 2016,
Raduan recebeu o Prêmio Camões,
considerado o mais importante reconhecimento literário da língua portuguesa.
Apesar de abordar
intensamente, em suas obras, as complexas dinâmicas familiares e seus conflitos,
manteve uma vida pessoal discreta e reclusa, sem filhos. Sem herdeiros diretos,
destinou a maior parte de suas terras à universidade e uma pequena parcela a um
funcionário de confiança.
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| Raduan Nasser sempre foi avesso às entrevistas (foto: Ligia Franceschi) |


