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| O Hospital Oftalmológico do BOS é maior centro para tratamento de olhos do Brasil |
Nelson Gonçalves,
especial para a Folha2
Sorocaba, cidade histórica situada a apenas 98 quilômetros
da capital paulista, nasceu do movimento dos tropeiros e foi fundada em 1654
pelo bandeirante Baltazar Fernandes. Terra natal do brigadeiro Tobias de Aguiar
— fundador da Força Pública e patrono da ROTA (Ronda Ostensiva Tobias de
Aguiar) da Polícia Militar ---, o município orgulha-se de um povo de visão, no sentido mais amplo da
palavra.
Ver o mundo com clareza, em suas cores e nuances, tornou-se
quase um símbolo local. Não por acaso, Sorocaba abriga um dos mais sofisticados
centros oftalmológicos da América Latina: o BOS (Banco de Olhos de Sorocaba),
mantido pela Maçonaria.
Tudo começou a partir de um ideal concebido em 1979,
concretizado por diversas entidades locais, entre elas cinco lojas maçônicas.
Em 1984, diante de uma fase crítica, os maçons decidiram assumir os destinos da
instituição, implantando um modelo de gestão empresarial e iniciando, em uma
área de 3,2 mil metros quadrados, a construção do hospital. Hoje, o complexo
ultrapassa os 21 mil metros quadrados, com previsão de atingir 30 mil nos
próximos anos.
Desde sua concepção, o projeto contou com apoio decisivo da
loja maçônica Acácia Sorocabana e da GLESP (Grande Loja Maçônica do Estado de
São Paulo). Na gestão do Grão-Mestre Orpheu Paraventi Sobrinho, tendo como
Adjunto Salim Zugaib, a obra — ainda em fase embrionária — recebeu visitas e
incentivos fundamentais para sua concretização. Ao longo da construção e
consolidação, o apoio institucional se manteve constante, por meio de
articulações políticas, visitas oficiais e divulgação na imprensa. “Estive
presente no lançamento da pedra fundamental e na inauguração do hospital”,
recorda Zugaib.
Busca pela perfeição
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| Fachada do Banco de Olhos de Sorocaba (BOS) em constante manutenção |
“Nosso objetivo é a busca da perfeição”, afirmava, em
dezembro de 2000, Jurandir Penha, então presidente do hospital e membro da Loja
Maçônica Acácia Sorocabana nº 97. À época, Sorocaba contava com cinco lojas da
GLESP; atualmente, são 21. Hoje, o empresário Sérgio Gabriel, do setor
automobilístico, preside o conglomerado que reúne nove unidades. Ele faz
questão de frisar que a instituição é filantrópica, sem fins lucrativos. “A
questão da humanização para o paciente, que vem sempre em primeiro lugar, é
muito importante para nós”.
Desde o início, a administração foi composta por maçons que,
em conjunto com o corpo médico, estabeleceram diretrizes claras: investimento
em tecnologia de ponta, pesquisa contínua e excelência no atendimento. Pascoal
Martinez Munhoz, diretor voluntário desde os primeiros tempos — quando o BOS
funcionava de forma improvisada em uma sala da Santa Casa — destaca que o apoio
da Maçonaria e da sociedade foi essencial para o crescimento e aperfeiçoamento
da instituição.
Flávio Soares Filho, que atua como voluntário na administração,
destaca a liderança inicial do colega Pascoal que uniu uma somatória de esforços para
correr atrás de doações, promover rifas e eventos para angariar recursos para a
construção do hospital. “Demoramos quatro anos levantando fundos para poder
iniciar a obra”, lembra.
Conscientização sobre doações
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| O Hospital Oftalmológico de Sorocaba é referência nacional e internacional |
Um dos maiores desafios iniciais foi a conscientização sobre
a doação de córneas. A desinformação dificultava o diálogo com as famílias.
Para enfrentar esse cenário, os maçons promoveram campanhas educativas,
distribuindo folhetos e esclarecendo a população. Qualquer pessoa pode ser
doadora, desde que manifeste esse desejo e comunique seus familiares, para que
o procedimento seja autorizado após o falecimento.
Persistem ainda equívocos sobre o processo. Muitos
acreditam, erroneamente, que os olhos são retirados. Na realidade, a captação
da córnea é feita por técnica cirúrgica precisa, sem deixar vestígios. Todo o
procedimento é realizado gratuitamente, tanto na captação quanto na destinação.
O BOS ganhou notoriedade nacional pela eficiência na
captação de córneas. Durante uma conferência internacional em Dallas (Estados
Unidos), na década de 1990, chamou a atenção ao adotar uma estratégia
inovadora: concentrar a captação em funerárias, e não em hospitais. Como o
procedimento pode ser realizado até cinco horas após o falecimento, essa
abordagem aumentou significativamente a eficácia do processo, facilitando o
contato com as famílias.
O início, contudo, foi marcado por dificuldades financeiras.
A construção do hospital resultou de um esforço coletivo liderado pela
Maçonaria, com apoio de entidades como Rotary e Lions. Rifas, sorteios e
campanhas comunitárias foram decisivos para viabilizar a obra, iniciada em
1991. Em 1995, antes mesmo da conclusão, o hospital já começava a atender seus
primeiros pacientes.
Resultados impressionam
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| O conglomerado do BOS fica localizado numa área que deve ultrapassar, dentro em breve, 30 mil metros quadrados de construção |
Ao longo de quase quatro décadas, os resultados
impressionam. Em 2023, o BOS registrou 15.206 córneas captadas — um aumento de
6% em relação ao ano anterior — número cerca de 61 vezes superior ao de 1984,
quando foram coletadas 248. No acumulado entre 1984 e 2024, a instituição
alcançou 237.491 córneas captadas, realizou 47.988 transplantes e contribuiu
para a formação de 133 médicos especialistas em oftalmologia. A residência
médica figura entre as mais concorridas do país, com média de 10 candidatos por
vaga.
A expansão também foi expressiva. Além de Sorocaba, o BOS
atua em regiões como Campinas, Piracicaba, Jundiaí, Vale do Paraíba, capital
paulista (no bairro Tatuapé) e Baixada Santista, com apoio de telemedicina,
parcerias hospitalares e equipes descentralizadas.
Esse crescimento consolidou o BOS como referência nacional e
internacional, resultado de planejamento, inovação e, sobretudo, de um ideal
coletivo: levar luz aos olhos e esperança à vida de milhares de pessoas.
Investimentos constantes
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| O Instituto BOS forma anualmente novos profissionais com especialização na área |
Há 27 anos à frente da superintendência do hospital, Edil Vidal de Souza
ressalta a importância dos investimentos contínuos para garantir a excelência
dos serviços. Em um cenário de acelerada evolução tecnológica, a atualização
constante é indispensável, já que equipamentos modernos rapidamente se tornam
obsoletos. “Mas o nosso maior património que nós temos são as pessoas que aqui
trabalham”, afirma. “Somos referência de olhos para todo o país e América
Latina”.
Instalado em uma área superior a 21 mil metros quadrados, o
BOS configura-se como um complexo de referência, reunindo hospital, centro de
reabilitação, instituto de pesquisa e formação de profissionais especializados,
academia, escola para filhos de funcionários e uma unidade móvel. A instituição
reafirma seu compromisso social ao manter uma creche para os filhos de seus
mais de 500 colaboradores e cerca de 100 médicos.
Sua infraestrutura inclui ainda uma usina de geração de
energia fotovoltaica e um espaço para eventos, iniciativas estratégicas que
contribuem para a sustentabilidade e expansão de suas atividades.
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| Início das obras do hospital em 1984 em Sorocaba |
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| Obras do Hospital Oftalmológico em construção no final da década de 1980 |
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| Início das obras no final da década de 1980 |
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| Momento da inauguração de uma das alas do Hospital Oftalmológico |
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| Início da construção do Hospital em 1984 |
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| Jurandir Penha foi um dos baluartes que ajudaram a erguer o Hospital |
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| Pascoal Martinez Munhoz é dos voluntários no BOS |
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| Início das obras do hospital em 1984 |
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| Prédio já estava sendo rebocado e ao redor tinham poucas construções |
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| O superintendente Edil Vidal de Souza conhece de perto todos os detalhes do hospital |
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| Edil e o diretor Pascoal Martinez Munhoz: presença diária no hospital |
Sérgio Gabriel, presidente do Grupo BOS, enfatiza que a prioridade é um atendimento humanizado
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| Flávio Soares Filho destaca que o hospital começou pequeno com 3 mil metros quadrados e hoje soma |
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| Escola do BOS para filhos dos funcionários: preocupação com a educação |
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| O Hospital Oftalmológico é equipado com aparelhos altamente sofisticados |
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Fachada do Centro de Estudos do BOS, em Sorocaba
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Jurandir Pascoal e o então Grão-Mestre Salim Zugaib
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| Flávio Soares, Edil Vidal, jornalista Nelson Gonçalves (Folha2) e Pascoal Munhoz |
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| Estacionamento de veículos para terceiros e futuro centro de eventos que serve de fonte de recursos para o BOS |