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Potirendaba: da formação do patrimônio rural ao centenário de desenvolvimento e identidade

A estátua Potirinha é um dos marcos do centenário de Potirendaba

 

Nelson Gonçalves, especial para a Folha2

As comemorações do centenário de Potirendaba foram marcadas por eventos como a tradicional Festa das Nações, reunindo cultura e gastronomia, e pela inauguração da estátua “Potirinha”, símbolo de trabalho, cooperação e prosperidade. Instalada em uma praça especialmente construída, a escultura representa a continuidade de uma história iniciada com pequenos loteamentos rurais e transformada, ao longo de um século, em uma cidade estruturada e de relevante identidade regional.

História do município

A história da fundação de Potirendaba está diretamente ligada ao movimento de ocupação e desenvolvimento do interior paulista no início do século 20, período em que o avanço da cultura cafeeira e a chegada de imigrantes transformaram profundamente a região.

Por volta de 1905, o território que daria origem à cidade começou a ganhar contornos mais definidos quando João Antonio de Siqueira, já em idade avançada, decidiu dividir suas terras entre seus três filhos. A área, cortada por importantes cursos d’água — os córregos Água Espraiada, Carrapateira e Cascata —, possuía características naturais favoráveis à ocupação. Coube ao engenheiro Luiz Roncato a tarefa de demarcar os lotes, organizando uma área de aproximadamente 17 alqueires que serviria de base para o futuro núcleo urbano.

Um personagem central nesse processo foi José Contador, caixeiro-viajante radicado em Jaboticabal, que percorria a região de duas a três vezes por ano, comercializando produtos essenciais como querosene, sal e até medicamentos. Visionário, acabou fixando-se definitivamente na vila em 1909. Em uma negociação marcante, trocou um carro de boi por cerca de 100 alqueires de terra, área que corresponde hoje à região central da cidade. Foi responsável pelo primeiro loteamento e também pela construção da primeira casa de tijolos do povoado.

O núcleo inicial ficou conhecido como Patrimônio do Bom Jesus, em razão da capela erguida no local, origem da atual igreja matriz. Ao redor dela, a comunidade começou a se organizar, tendo também devoções ligadas a Santo Antônio e ao Rosário, o que revela a forte religiosidade dos primeiros moradores.

A partir de 1916, a região passou a receber um fluxo significativo de imigrantes, especialmente italianos, espanhóis e libaneses, que buscavam melhores condições de vida. Muitos trabalharam nas lavouras de café, enquanto outros desenvolveram atividades fundamentais para o crescimento local, como olarias, serrarias e ofícios diversos, tais como pedreiros, carpinteiros, comerciantes. Aqueles com melhores condições financeiras abriram casas comerciais que ofereciam desde gêneros alimentícios até remédios, contribuindo para a autossuficiência do povoado.

A organização institucional também avançava, ainda que de forma gradual. Embora a delegacia só tenha começado a funcionar em 1911, já em 1919 chegava o primeiro soldado subdelegado, José Maximiano de Carvalho, encarregado de manter a ordem em uma região onde eram comuns furtos de cavalos e gado. Os métodos de punição refletiam os costumes da época: não era raro que infratores fossem amarrados a um coqueiro na praça pública.

No campo religioso, a estrutura se consolidou em 1927 com a instalação da paróquia, tendo como primeiro pároco Álvaro Pereira Pinto. Anos depois, em 1936, seria lançada a pedra fundamental da igreja matriz, símbolo do amadurecimento da comunidade.

A emancipação política ocorreu em um contexto mais amplo de crescimento administrativo do estado de São Paulo durante a chamada República Velha, período em que foram criados 109 novos municípios. O nome “Potirendaba” foi proposto pelo deputado Francisco da Cunha Junqueira, de Ribeirão Preto, e aprovado pelo Congresso, consolidando a identidade da nova cidade.

O primeiro prefeito foi Benjamin Augusto Borges (1885–1956), português de Coimbra que chegou à localidade em 1920. Figura de grande importância, participou da fundação do Partido Republicano Paulista (PRP) no município e estruturou serviços essenciais, como o posto policial, o grupo escolar, a paróquia e a coletoria estadual. Foi eleito em 21 de março de 1926.

Seu sucessor, João Lúcio de Lima (1837–1965), exerceu o cargo por curto período em 1929. Durante sua gestão, demonstrou grande comprometimento com o desenvolvimento local, chegando a vender um sítio da própria família para garantir a conclusão dos serviços de eletrificação da cidade. Pouco antes de encerrar seu mandato, foi vítima de um atentado enquanto realizava a cobrança de impostos, sendo alvejado por um tiro, episódio que evidencia as dificuldades e tensões enfrentadas na administração de uma comunidade ainda em formação.

Outro nome que marcou a história política foi Dino Benfatti (1886–1948), imigrante italiano que assumiu a prefeitura em 9 de julho de 1932. No entanto, em razão da Revolução Constitucionalista daquele ano, seu mandato durou apenas quatro dias.

Ao longo das décadas seguintes, Potirendaba consolidou-se como um importante núcleo urbano da região, mantendo viva a herança de seus pioneiros — homens e mulheres que, entre desafios, improvisos e coragem, transformaram um pequeno patrimônio rural em uma cidade estruturada. Episódios culturais, como a apresentação da dupla Tonico e Tinoco nas festividades do cinquentenário, demonstram o quanto a identidade local foi sendo construída também por meio da tradição e da cultura popular.

Assim, a fundação de Potirendaba não se resume a um ato formal, mas sim a um processo coletivo, marcado pela iniciativa de desbravadores, pela força do trabalho imigrante e pela construção gradual de instituições que deram sustentação ao desenvolvimento da cidade.

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