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Vermelha, precisa e eterna: a herança industrial da balança Filizola

Produtos lançados no mercado há 140 anos ainda são resistentes ao tempo


 Nelson Gonçalves, especial para a Folha2 

A história da Filizola confunde-se com a própria formação da indústria brasileira. Durante décadas, por várias gerações, suas balanças ocuparam um lugar silencioso, porém indispensável, no cotidiano do país. Vermelhas, robustas, precisas, tornaram-se parte da paisagem de padarias, açougues, farmácias, armazéns, academias e hospitais. Mesmo após o encerramento definitivo da empresa, em 2014, mais de 2,5 milhões dessas balanças continuam em funcionamento, como testemunhas de um tempo em que fabricar no Brasil era também um ato de ousadia e confiança no futuro.

 Tudo começou em 1882, pouco antes de o Brasil ser proclamado como uma república, quando um garoto italiano de apenas 14 anos, chamado Vicenzo Filizola, desembarcou no porto do Rio de Janeiro trazendo pouco mais que coragem e disposição para trabalhar. Seu nome logo seria aportuguesado para Vicente, assim como sua vida passaria, pouco a pouco, a se misturar com a história do país que o acolheu. Nos primeiros anos, trabalhou como auxiliar em uma casa de ferragens, onde aprendeu o idioma, observou ferramentas, peças e mecanismos, e começou a formar, ainda sem saber, o olhar de inventor e industrial.

 Dois anos depois, seguiu para São Paulo em busca do tio, Pedro Caetano, que lhe estendeu a mão e o ajudou a montar uma pequena serralheria. Era um espaço modesto, dedicado à fabricação de fechaduras e trincos, mas ali se forjava algo maior do que simples objetos de metal: construía-se um destino.

 

Primeiras balanças produzidas pela Filizola, copiando as de "modelo Roberval"

O momento decisivo viria em 1886, quando Vicente foi desafiado a consertar uma balança do tipo Roberval, importada da França. Sem nunca ter trabalhado com aquele equipamento, aceitou o desafio. O conserto deu certo. Mais do que isso: despertou a certeza de que era possível fabricar balanças no Brasil, com a mesma precisão das europeias, porém a um custo acessível.

 Nasciam, assim, as primeiras balanças nacionais. Em 5 de abril de 1886, surgia oficialmente a empresa que carregaria para sempre o sobrenome da família Filizola.

O crescimento foi rápido, quase inevitável. Em1890, quarenta pessoas já trabalhavam na produção das balanças. Vicente casou-se, formou família e viu os filhos Nicola, Pedro e Aurélio crescerem entre engrenagens, pesos e mostradores. Com o tempo, eles assumiriam papéis centrais na empresa, garantindo a continuidade do negócio e a transmissão de um saber construído no dia a dia da fábrica.

 O pequeno sobrado da Rua da Consolação, 56, onde morava a família e também era a fábrica, tornou-se apertado para tantos sonhos e encomendas. Em 1920, a Filizola mudou-se para o bairro do Canindé, ocupando uma unidade maior, à altura de uma empresa que já se consolidava como referência nacional.

Em 1946, ao completar 60 anos, a fábrica celebrou sua trajetória com um almoço preparado pelo célebre Vittorio Fasano. Foi um gesto simbólico de reconhecimento à importância que a empresa havia alcançado. Dois anos depois, em 1948, Nicola, já à frente dos negócios, decidiu eternizar a memória do pai. No mesmo local onde funcionara o primeiro sobrado da empresa, na Rua da Consolação, mandou erguer um edifício de 10 andares, batizado de Edifício Vicente Filizola. “A construção já havia sido idealizada por Nicolau ainda quando Vicenzo era vivo, na propriedade do tio Gaetano, em conjunto com o terreno vizinho que o próprio Vicenzo havia adquirido”, recordou Fernando Filizola, bisneto do fundador, em entrevista à imprensa paulistana.

 

Edifício Vicente Filizola na rua da Consolação, em São Paulo

Em 1951, a Filizola alcançou a marca de 500 mil  balanças produzias. O país mudava, industrializava-se, e a empresa acompanhava esse movimento com novos produtos, como os cortadores de frios, que rapidamente se tornaram presença constante nos balcões comerciais. Em 1966, a indústria deixou o Canindé e instalou-se em uma ampla unidade de 20 mil metros quadrados no bairro do Pari, consolidando-se como um dos grandes complexos industriais do setor.

As primeiras balanças eletrônicas foram lançadas também pela Filizola


A vocação para a inovação manteve-se viva. Em 1979, a Filizola lançou a primeira balança eletrônica da América Latina, sinalizando sua capacidade de dialogar com o futuro sem abandonar a tradição. Já no início do século 21, enfrentando um mercado cada vez mais competitivo, com mais de 20 fabricantes nacionais, a empresa modernizou sua identidade visual e inaugurou duas unidades fabris em Campo Grande (MS), em 2004. Quatro anos depois, em 2008, obteve a certificação ISSO 9001:2000, reconhecimento internacional de seus processos e qualidade.

 Mas nem mesmo histórias sólidas estão imunes às transformações econômicas. Em 2014, com cerca de R$ 25 milhões em dívidas. a Filizola teve sua falência decretada e encerrou suas atividades.

 A fábrica silenciou. As máquinas pararam. Ainda assim, a marca permaneceu. As balanças vermelhas seguem pesando o pão, a carne, os remédios e os corpos; seguem presentes na rotina de milhares de brasileiros. Cada uma delas carrega, discretamente, a memória de um jovem imigrante, de uma família de industriais e de uma empresa que ajudou a medir, em quilos e gramas, a própria história do Brasil.

Fábrica também produziu impressoras de etiquetas

Logotipo antigo trazia dentro de um círculo o desenho de três triângulos, que foram projetados pelo próprio Vicente Filizola para registrar a marca

As balanças eletrônicas também estão até hoje em funcionamento


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