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O São João de todos nós: identidade cultural e pertencimento em tempos de consumo

Bandeirinhas coloridas, fogueira acesa, forró animado e o sabor irresistível das comidas típicas. No Nordeste, a Festa de São João é muito mais que uma tradição: é uma celebração da fé, da cultura e da alegria do povo. Viva São João!


Por Aldy Carvalho (*)


     A Banda de Pífanos de Pernambuco apresentou-se recentemente em Salgueiro. Uma manifestação artística reconhecida nacionalmente, herdeira de séculos de tradição popular, expressão legítima da alma sertaneja e nordestina. No entanto, diante do palco, um cenário desolador: praticamente não havia plateia  para prestigiar uma das mais autênticas representações de nossa identidade cultural.

     O fato torna-se ainda mais significativo quando lembramos que estamos justamente no período junino, entre os meses de junho e julho, época em que o Nordeste celebra o ponto mais alto de suas tradições populares. É o tempo das fogueiras, dos pífanos, das sanfonas, do forró, das quadrilhas, dos cordéis, dos aboios e das inúmeras manifestações que compõem o rico mosaico cultural nordestino. Trata-se de um período em que não apenas festejamos, mas também transmitimos às novas gerações os valores, saberes e símbolos que herdamos de nossos antepassados. Ver uma expressão tão genuína de nossa cultura encontrar tão pouco acolhimento justamente nesse contexto revela o tamanho do desafio que enfrentamos para preservar e fortalecer nosso patrimônio cultural.

     O episódio transcende a simples questão da presença de público. Ele nos obriga a refletir sobre algo mais profundo: o progressivo distanciamento de nossa sociedade das referências simbólicas que sustentam sua memória coletiva. Quando uma comunidade deixa de reconhecer valor naquilo que a constituiu historicamente, corre o risco de perder o sentido de pertencimento. Afinal, “quem não valoriza suas origens deixa de ser de algum lugar para tornar-se, culturalmente, de lugar nenhum”, bem já disse o amigo arquiteto e ativista cultural, Cosme Cavalcanti.

     Como poeta cantador do sertão e estudioso das ciências sociais, observo com preocupação a substituição crescente da cultura identitária pela cultura do consumo imediato. O mercado cultural contemporâneo, movido pela lógica da rentabilidade rápida, transforma a arte em produto descartável. Canções, ritmos, comportamentos e modismos são consumidos e abandonados na velocidade das redes sociais. Pouco importa a profundidade da mensagem, a riqueza estética ou o vínculo com a história de um povo. O que importa é o alcance, o engajamento instantâneo e o lucro.

     Essa realidade já havia sido analisada por Theodor Adorno ao discutir a chamada indústria cultural. Para ele, a cultura transformada em mercadoria tende a uniformizar gostos e reduzir a capacidade crítica dos indivíduos. O entretenimento deixa de provocar reflexão e passa a funcionar como mecanismo de consumo e conformismo.

     Walter Benjamin, por sua vez, alertava para a perda da aura das manifestações culturais quando estas se tornam reproduções massificadas e desvinculadas de seus contextos originais. Algo semelhante ocorre quando tradições populares, como os pífanos, o cordel, os aboios, os folguedos o nosso forró de pé de serra, a gastronomia e tantas outras expressões nordestinas, são relegadas à condição de curiosidades folclóricas, enquanto produtos culturais globalizados ocupam todos os espaços de visibilidade.

     Não se trata, evidentemente, de condenar as novas gerações. Consome-se, hoje, em grande medida, aquilo que é oferecido e valorizado pelos meios de comunicação, pelas plataformas digitais e pelas estruturas de mercado. A ausência de interesse por determinadas manifestações culturais não decorre de uma falha individual, mas de um processo educativo e cultural que, há décadas, vem enfraquecendo a formação humanística, a consciência histórica e o pensamento crítico.

     Nesse ponto, as reflexões de Darcy Ribeiro permanecem atuais. Ele defendia que um povo só se realiza plenamente quando reconhece e valoriza sua própria formação cultural. A escola deveria ser um espaço privilegiado para esse encontro com a identidade nacional e regional. Contudo, muitas vezes ela própria reproduz a lógica que privilegia referências externas em detrimento das culturas locais.

     Edgar Morin também nos oferece importante contribuição ao afirmar que a educação precisa ensinar a contextualizar, relacionar e compreender a complexidade do mundo. Sem essa capacidade crítica, os indivíduos tornam-se mais vulneráveis aos discursos prontos, às modas passageiras e às imposições simbólicas do mercado.

     Talvez por isso tenhamos passado tantas décadas consumindo, sem maiores questionamentos, não apenas produtos estrangeiros, mas também valores, hábitos e modelos culturais importados. A música, os costumes e até os sonhos passam a ser moldados por referências externas, enquanto nossas próprias expressões culturais são tratadas como ultrapassadas ou irrelevantes.

     O esvaziamento de uma apresentação da Banda de Pífanos não é, portanto, um fato isolado. É um sintoma. Revela o enfraquecimento dos laços entre memória, identidade e pertencimento. E revela, igualmente, a responsabilidade dos gestores públicos, dos sistemas educacionais, dos meios de comunicação e de todos nós na preservação desse patrimônio imaterial.

     Uma sociedade que abandona suas referências culturais não se torna mais moderna, torna-se mais vulnerável. Porque o futuro só pode ser construído com solidez quando se conhece, se respeita e se valoriza o chão histórico e cultural sobre o qual se caminha.

     Um povo não perde sua identidade de uma vez; perde-a aos poucos, quando deixa de reconhecer a si mesmo em sua música, em sua fala, em suas festas, em sua memória e em seus símbolos.

     Eu, poeta cantador, filho do sertão, dessa cultura que aprendi primeiro ouvindo do que lendo, sigo acreditando que preservar nossas tradições não é um gesto de saudosismo, não, não é, é um ato de resistência, de afirmação, de consciência histórica e de compromisso com as gerações que virão, porque um povo que conhece suas raízes pode dialogar com o mundo inteiro sem deixar de ser quem é.

                                                                                  

Aldy Carvalho, o Cantador láaaa do sertão, junho 2026


Ao som dos pífaros e da tradição, a cultura popular ganha vida, preservando histórias, fé e alegria que atravessam gerações.



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