Apagado
pelo poder público, mural grafitado por artista maranhense sob o viaduto Jordão
Reis, na avenida Philadelpho Gouveia Neto, em Rio Preto, reverenciava mestre de
manifestação cultural que é Patrimônio Cultural do Brasil (foto: Toninho Cury)
Marival
Correa, especial para a Folha2
"Eu sou guerreiro, eu sou valente, eu venho de São Vicente, minha aldeia é no Tabocá"... O trecho da letra da toada "Guerreiro de São Vicente" pode ser interpretado como uma espécie de cartão de visitas de José de Jesus Figueiredo, o Mestre Zé Olhinho, uma das maiores referências do Bumba Meu Boi do Maranhão, manifestação reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil e inscrito na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.
Do
alto de seus 82 anos, no entanto, o guerreiro valente que faz ecoar o som de
suas toadas a partir do povoado maranhense de Tabocas foi derrotado, em uma
luta desigual travada a muitas centenas de quilômetros de seu local de origem.
O
mural grafitado por Gil Leros para homenagear Mestre Zé Olhinho, que ficava sob
o viaduto Jordão Reis, na avenida Philadelpho Gouveia Neto, em Rio Preto, foi
apagado pelo poder público. Sem cerimônia, sem qualquer prévio aviso.
Eliminaram as cores que exaltavam o mestre bumbeiro e seu estandarte, uma das
mais genuínas expressões folclóricas brasileiras. Ficou o branco a flertar com
o cinza do concreto de uma cidade cada vez mais sem cor.
![]() |
Antes
o mural pintado pelo artista plástico Gil Lero em homenagem ao Mestre Zé
Olhinho. E agora o mesmo local apagado pela Prefeitura de Rio Preto (Fotos:
Toninho Cury)
Em entrevista por telefone, direto de São Luís, Gil afirmou que desconhecia o fato e lamentou a eliminação abrupta da obra. “Usar recurso e poder público para apagar arte, não me parece algo muito inteligente de ser feito”, disse o autor do mural, grafiteiro e artista plástico, conterrâneo de mestre Zé Olhinho que estampa nos muros da capital maranhense e do Brasil afora sua arte urbana inspirada nas tradições culturais de seu estado, como o Bumba Meu Boi e o Tambor de Crioula.
“Esse
mural de Rio Preto tem um significado bem especial pra mim. Ele foi o primeiro
de uma série de personagens homenageados que faço de mestres e mestras da
cultura popular, em particular do Bumba Meu Boi. Inclusive, aparece no meu
primeiro documentário sobre esse projeto”, explicou o autor.
![]() |
Gil
Leros: "O uso de recurso público - de dinheiro público! - , pra apagar
arte e distanciar a cultura da paisagem das cidades é um erro muito
grande" (créditos: Fotos Divulgação/Redes Sociais)
O projeto em questão, intitulado “Amo, Poeta e Cantador” foi criado por Gil exatamente para celebrar, por meio do graffiti, figuras marcantes da cultura popular maranhense. Dentre eles, Mestre Zé Olhinho, o primeiro cantador de uma série de 30 personalidades já homenageadas até agora dentro do projeto, que inclui, além dos próprios murais, o registro em audiovisual e também no livro “Amo, Poeta e Cantador: Murais da Memória pelo Maranhão”, assinado por Gil e pela cientista social Thayná Rosa.
Um
trabalho calcado nas cores vivas para reverenciar os “amos”, figura central e
fundamental do Bumba Meu Boi, que atua como o líder, cantor principal das toadas
e “dono” da festa. Ele é responsável por conduzir o espetáculo e garantir o bom
andamento das apresentações.
“As
artes urbanas geralmente têm duração efêmera. Sabemos que um dia vão
desaparecer. É triste, mas aprendemos lidar com a situação. O ruim é quando
esse apagamento é feito através de recurso público”, complementa Gil, que tem
um vínculo de muitos anos com Rio Preto.
“Essa
conexão é antiga. Em 2004, aqui em São Luís, teve uma ação de um projeto de
Porto Alegre intitulado “Trocando Ideia”, com objetivo de promover
‘intercâmbio’ do hip hop de vários lugares do país. A Ana Paula e o Dj Basim,
da Casa do Hip Hop de São José do Rio Preto, vieram pra cá e nisso construímos
uma amizade que resultou no convite de pintar aí, em 2010 e depois em 2015”, contou
o artista.
![]() |
| Gil Leros, autor da obra, não foi comunicado e ficou indignado com a atitude da Prefeitura |
Identidade
cultural
Segundo
Gil Leros, a arte urbana fundamentada na dança, na música e nas artes visuais
tem um propósito que vai além do protesto. “Também tem como finalidade agregar
valores culturais e paisagísticos aos espaços urbanos. Esse mural, no caso,
destaca a memória da identidade do nosso povo, faz referência a um grande
mestre da cultura tradicional e popular aqui do Maranhão”, enfatizou.
De
acordo com Gil, as gestões públicas precisam acordar para a importância desses
valores. “Não se leva arte às ruas pra desvalorizar os espaços. O uso de
recurso público - de dinheiro público! - , pra apagar arte e distanciar a
cultura da paisagem das cidades é um erro muito grande. Esse recurso deveria
ser pra valorização e requalificação das identidades e fortalecimento
cultural”, disse Gil.
“Quando fui convidado pela Ana Paula para
pintar esses murais fiquei muito feliz por poder reencontrar amigos de tinta e
deixar um pouco de cultura aqui do Maranhão na cidade de São José do Rio Preto.
É uma pena que esse pouco de cultura tenha chegado ao seu fim”, acrescentou
ele, em um autêntico lamento nordestino.
![]() |
Mestre
Zé Olhinho, referência do Bumba Meu Boi do Maranhão (crédito: Agência Tambor)
Mestre e guerreiro
O
Bumba Meu Boi do Maranhão construiu parte do seu legado por causa dos mestres,
amos e cantadores que estão à frente dos grupos.
Um
destes detentores deste saber continua em plena atividade aos 82 anos,
contribuindo para a manutenção e proteção da manifestação cultural que refelte
as tradições maranhenses para o Brasil e para o mundo: seu José de Jesus
Figueiredo, o Mestre Zé Olhinho, como é conhecido, que ganhou o apelido por
causa dos olhos pequenos.
Das
oito décadas de vida, mais de seis delas são dedicadas aos grupos de Bumba Boi,
em especial o Boi Unidos de Santa Fé, com sede em São Luís, do qual é fundador
e presidente, e que completou 37 anos no São João de 2025.
Antes do trabalho junto ao Santa Fé, Mestre Zé Olhinho iniciou sua jornada nos arraias típicos do Maranhão, ainda nos anos 1960, influenciado pelo amo, cantador e compositor de toadas João Câncio, no Boi de Pindaré , também com sede na capital maranhense. Foi lá, que ele compôs as primeiras, das centenas de toadas do seu repertório.
Mestre
Zé Olhinho, do alto dos seus 82 anos, ainda quer levar esse “sotaque” por
muitos anos por amor à brincadeira e à genuína arte de seu estado que ainda
resiste bravamente às inovações digitais. Por extensão, ele próprio um
patrimônio cultural que já estampou, em cores vivas, o mural em um viaduto de
Rio Preto, apagado como se a própria memória pudesse ser apagada.
![]() |
| Viaduto perdeu as cores que deixava o local um pouco mais alegre (Foro: Toninho Cury) |
Sem
saída
O
local onde ficava o mural que ilustrava Mestre Zé Olhinho é o ponto nevrálgico
de uma cidade em conflito consigo mesma. Rio Preto dobra a primeira metade da
década de 2020 refém de políticas públicas que, até agora, não deram conta de
resolver um de seus maiores desafios: os cidadãos à margem, rotulados de
“moradores em situação de rua”, como se esta fosse uma realidade desejada ou
buscada por quem nada tem.
Ficaram
promessas pelo caminho e o branco abraçado ao cinza do concreto. E no meio
desse caos imposto pela ineficiência do poder público, a linha do trem é o
marco da exclusão. Ela, que atravessa os principais pontos de concentração
dessas pessoas, demarca a cidade que se reconhece apenas na realidade que
reflete ela mesma. E que cria divisões, microcidades invisíveis em que as cores
são proibidas. E rostos são números, apenas.
![]() |
| Obra que retratava o Mestre Zé Olhinho foi apagada pela Prefeitura de Rio Preto |
Secretário também fica surpreendido
O secretário municipal de Cultura, maestro Robson Vicente, afirmou ter sido surpreendido ao tomar conhecimento do apagamento da obra. Segundo ele, a iniciativa não partiu de sua pasta. “Pode ter certeza de que não partiu de mim essa ordem”, declarou, acrescentando que não conhece o artista nem tem informação sobre quem teria autorizado a pintura que encobriu a obra existente sob o viaduto.
Intrigado com a situação, o secretário da Cultura ligou no domingo à reportagem da Folha2 para informar ter constatado pelo sistema de imagens do Google Maps, cuja ultima atualização foi feita em abril de 2024, que a pintura já estava apagada naquela época. “Então portanto não foi nessa administração que essa obra foi apagada lá no viaduto e isso está claro nas fotografias do Google Mapa”, afirmou, ressaltando que qualquer pessoa que pesquisar pela internet verificará que a obra de arte já estava apagada quando foram feitas as imagens para serem jogadas no aplicativo de geolocalização do Google Maps.

Fotos fornecidas pela Prefeitura mostram que em abril de 2024 a pintura já tinha sido apagada debaixo do viaduto Jordão Reis, na avenida Philadelpho 
O sistema do Google Maps comprova que desde abril de 2024 a pintura já tinha sido apagada
.






